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Café e Classe Social: Uma Bebida Realmente Democrática?

Explorando como o café ultrapassa barreiras sociais e sua complexa relação com as classes.

TA
Tomás Andrade
Ensaísta e crítico cultural··3 min

O barulho do bonde em Santa Teresa tem seu modo de me lembrar que a cidade é muito mais do que sua superfície brilhante. E às vezes, ele me leva a pensar em coisas tão simples quanto um cafezinho. Porque, veja bem, o café é essa bebida que parece unir gente de todo tipo. Mas será que a gente bebe a mesma bebida, mesmo?

É que o café, como poucas coisas, viaja entre classes sem mudar de nome. Do cafezinho preto na padaria do Seu Antônio ao expresso sofisticado servido em uma cafeteria chique, ele mantém sua identidade. Mas a experiência, claro, é diferente. Tem um livro do Roberto Schwarz que fala dessas diferenças meio invisíveis, mas tão palpáveis — talvez o café seja um fenômeno parecido.

Lembro de uma vez em que estava num café em Curitiba. O barista, um sujeito que falava de café como quem comenta um bom disco de jazz, me contou sobre as nuances do grão que iria usar no meu pedido. Era quase uma performance, uma pequena celebração. Aí, me peguei pensando em quantas pessoas, nessa cidade ou em qualquer outra, têm acesso a essa experiência. Ou será que um pingado feito às pressas no balcão é tão memorável quanto?

A Moagem Fina Extrai Mais — Para o Melhor e Para o Pior

A moagem do café é outra dessas coisas que separam as experiências. Moído fininho, ele é um prazer para quem preza pela perfeição na xícara. Mas, para o Seu Antônio, que mói de qualquer jeito porque o que importa é a conversa enquanto ele passa o coador, isso não faz diferença. E será que deveria? Ou será que a gente é que complica demais?

Talvez o mais democrático do café seja a conversa que ele provoca. O café vai do lar ao escritório, da mesa da cozinha à reunião de negócios. Mas a pergunta que fica é: se o café é mesmo para todos, por que ele ainda parece um luxo para alguns? Eu vi o preço subir nos últimos anos, concorda? Parece estranho falar em democracia quando uma boa parcela da população não tem acesso ao café especial por conta do custo.

Aí me lembro de uma conversa com a Ana Pereira sobre como o preço do café especial reflete não só a qualidade, mas também o respeito ao produtor. E isso me fez pensar que talvez essa experiência diferenciada seja, na verdade, um caminho para uma cadeia mais justa, ao invés de um símbolo de exclusão.

E então, onde isso nos deixa? Talvez numa reflexão sobre o que realmente significa essa "democracia" do café. Será que podemos chamar algo de democrático quando seu acesso é tão desigual? Ou será que a verdadeira democracia se alimenta de cada gole, cada xícara, independentemente de onde ela vem?

Talvez o café seja mesmo essa ponte entre mundos diferentes. Mas aí, quem sabe, essa ponte ainda precise ser cruzada com mais frequência.