Café e Identidade Nacional Brasileira: Um Olhar Crítico
Exploração crítica do papel do café na construção da identidade nacional brasileira.
Olhando pela janela da minha sala, vejo o bonde subir a ladeira de Santa Teresa. O som é familiar, quase um ritual. Ritual... talvez a palavra também sirva pro café. É que, como o bonde, o café é parte da identidade do Rio, de Minas, de tantos lugares no Brasil. Mas como isso se formou?
Ontem mesmo, bebendo um café coado no bar do Seu Antônio, dei uma olhada num artigo que dizia que fomos produtores que aprenderam tarde a beber link. Uma ironia, não? O maior produtor de café do mundo, mas que só aprendeu a ter alguma intimidade com a bebida depois que os europeus apontaram que existia algo chamado 'qualidade'. Aí você me diz que isso é exagero. Talvez seja.
O café, de alguma forma, nos molda. Ou nos vende moldados. Quantos comerciais sobre o Brasil não mostram a colheita do café? O campo em Minas, a xícara que fumega na mão do trabalhador. Identidade vendida em pacotes. Mas pense um pouco no quanto o café nos excluiu. Ficamos fora por muito tempo link. Na cena global, éramos só fornecimento. Consumidor? Só dos restos.
Mas não é justo falar só das ausências. Hoje, São Paulo tem cafeterias que são verdadeiras embaixadas do café especial, como o Coffee Lab da Isabela Raposeiras. Esses espaços ajudam a recriar o significado do café para o brasileiro. Um significado que não precisa ser elitista.
A questão é que, historicamente, o café foi mais exploração que identidade. Mão de obra escravizada, depois os imigrantes. Sempre o outro na lavoura, sempre o expatriado tomando. E aí está o desafio: até que ponto nosso imaginário sobre o café reflete o que a gente é? Ou melhor, o que a gente quer ser?
Café como identidade nacional? Talvez. Mas é uma identidade que não foi construída por nós, e sim em cima de nós. Talvez uma identidade que ainda estamos tentando entender. Um copo meio cheio? Ou meio vazio?