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Café e Luxo: A Bebida como Símbolo de Status Social

Uma análise de como o café se tornou um símbolo de luxo em diferentes culturas.

TA
Tomás Andrade
Ensaísta e crítico cultural··3 min

Era manhã em Santa Teresa e o barulho do bonde fazia eco na sala enquanto eu mexia o café no V60. Talvez, em lugares como esses, o café ainda seja só café. Mas em certos cantos e círculos, ele se tornou outra coisa. Símbolo de status, de uma sofisticação que nem sempre se explica só pelo sabor.

A gente vê isso cada vez mais. Cafeterias de vidro e metal, máquinas de espresso que parecem saídas de um laboratório de ficção científica. E os preços? Algo que nos faz pensar. Como já discutido em Terceira Onda, Quarta Onda — E O Café Que Importa, o café passou de um simples acompanhamento na mesa para um objeto de culto — e de investimento.

O Preço do Luxo

Comprar um café especial, com um mínimo de 84 pontos na escala SCA, virou quase um código social. O que era apenas um grão coado se transformou em um marcador de classe. Eu lembro de uma conversa com um barista em Curitiba. Ele falava de café como quem falava de jazz — cada extração uma improvisação, cada blend um concerto. Mas, enquanto ele falava, eu pensava: e o preço que ele recebe por isso? Aí está o paradoxo.

Em Por que baristas ganham mal e por que isso é problema seu, essa questão de valorização é debatida. O café, como símbolo de status, enriquece a vitrine, mas nem sempre quem está por trás do balcão. A gente paga caro por um rótulo, mas o pagamento justo pelo trabalho de quem faz essa experiência acontecer, muitas vezes, fica de lado.

Cultura e Consumo

Acontece que essa elevação do café a status de luxo não é universal. Viajei, em outra ocasião, para países onde o café ainda é um ritual comunitário, sem pompa nem circunstância. A Turquia, por exemplo, tem seu café forte e denso, servido em xícaras minúsculas, num ritual que precede qualquer moda ocidental.

Mas mesmo aí, o café carrega consigo seus próprios símbolos. É parte de uma cultura que, embora não vista como luxo, tem suas próprias regras de etiqueta. O café é um pretexto para o encontro, para a conversa sem hora. Algo que talvez a gente tenha esquecido nas corridas madrugadas de centros urbanos.

Reflexão

O café, em suas variações de status e luxo, levanta uma pergunta incômoda: quanto disso é sobre a bebida e quanto é sobre o que queremos mostrar? É que, no final, a xícara de café deve ser mais nosso espelho que um pedestal.

Talvez a gente possa, um dia, voltar a ver o café pelo que ele é, e não pelo rótulo que lhe colocamos. O café do Seu Antônio na esquina, bem tirado, vale tanto quanto o mais caro dos espressos. Se não mais.