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Café: Entre a Tradição e a Modernidade nos Rituais de Consumo

Explore a evolução dos rituais de consumo de café, entre o antigo e o atual.

TA
Tomás Andrade
Ensaísta e crítico cultural··3 min

Lembrei de um dia, não faz muito tempo, quando eu estava preso em casa naquelas manhãs de chuva que o Rio gosta de mostrar, e o cheiro do café fresco me fez parar no tempo. Tá, talvez eu tenha parado só por um ou dois minutos, mas nesse intervalo pensei no quanto o ato de preparar e tomar café mudou — ou não mudou — ao longo dos anos.

É que o café, essa bebida que carregamos de xícaras em xícaras, sempre foi mais do que sua composição química. Ele é história, hábito, resistência até. Quando penso no café da padaria do Seu Antônio, vejo um ritual que pouco mudou. Uma tradição que passa de mão em mão, sem pressa. Ainda assim, por mais que o café coado da esquina mantenha sua essência, a realidade é que ele convive agora com técnicas sofisticadas, como a minha manhã de V60.

Aí me pergunto: estamos vivendo uma era que reconfigura os rituais sem, de fato, esquecer o passado? A Helena já discutiu isso quando analisou como o café especial vem se tornando o novo mainstream. O custo de trazer novas tendências ao ritual é esquecer o que de fato nos conectava ao café? Ou apenas uma evolução natural?

O barista que conheci em Curitiba, que falava de café como quem fala de jazz, uma vez me disse que a modernidade é só um jeito de reinventar a tradição. Pode ser. Contudo, o café que tomamos agora, entre grãos de procedência rastreável e moagens finas, parece se impor como símbolo de uma busca por autenticidade, mas também de status. Será que realmente resgatamos o essencial?

Talvez seja aqui que a gente tropece. Por um lado, existe uma satisfação em escolher o grão, entender de onde veio, conhecer quem o produziu. É a modernidade tentando emular as conexões que a tradição fazia de modo orgânico. Mas por outro, será que a gente se perde um pouco? Fazendo do café uma experiência unicamente individual? Um ritual que, outrora, era coletivo e simplificado, mas que agora carrega o peso da escolha consciente?

Acontece que o que importa mesmo é a xícara que nos conecta com o dia. Seja o café coado de modo ritualístico ou o despejado com pressa da máquina automática. No fim, o que fica é a cena: o vapor que sobe da bebida, o calor que aquece, a pausa — longa ou breve — que nos força a olhar melhor. O café, afinal, é mais sobre como nos olhamos através dele, do que sobre como ele se apresenta a nós.

Então, tradição ou modernidade? Talvez nos encontremos no meio disso tudo, onde o café ainda é só café, e a escolha do ritual é só um reflexo de como queremos viver aquele momento.