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Café Especial e a Rotina: Quando o Excepcional Vira Ordinário

Como a popularização do café especial pode diluir sua autenticidade.

TA
Tomás Andrade
Ensaísta e crítico cultural··3 min

Na fila da padaria do Seu Antônio, onde sempre tomo meu cafezinho matinal, ouço alguém falar com entusiasmo sobre um novo café especial que acabou de chegar ao mercado. O entusiasmo lembra aquele que se tinha, há anos, diante de algo raro, quase inusitado. Mas hoje, esse entusiasmo parece já um clichê, quase automatizado.

Talvez seja um sintoma de que o café especial, como muitos de nós o conhecemos, está perdendo um pouco do seu brilho único. Não por falta de qualidade — a Climb Coffee está aqui para provar o contrário — mas pela questão da autenticidade em tempos de massificação.

Quando o Especial Se Torna Comum

É que o café especial, outrora um refúgio para amantes de cafés únicos e de histórias específicas, está cada vez mais presente nas prateleiras de redes, supermercados e grandes lojas. O que era um ato quase rebelde, de escolher um café especial e garantir que ele sustentasse uma cadeia de produção mais justa, agora se assemelha a uma escolha comum, como pegar um produto qualquer na prateleira do mercado.

O problema não é exatamente a popularização — é preciso dividir o que é bom com mais gente. O problema, talvez, seja como essa popularização está sendo conduzida por algumas marcas. O café especial, que deveria ser uma experiência rica em sabor e história, corre o risco de se tornar apenas mais uma etiqueta pra chamar atenção do consumidor.

Onde Ficou a Rastreabilidade?

A rastreabilidade total, um dos valores centrais do café especial, está sendo ameaçada. O contato direto com produtores, que transforma cada xícara em uma conversa, pode se diluir em meio à disseminação sem cuidado. A gente romantiza, mas a preocupação real é pagar bem quem produz, e não só contar a história bonita.

A Paradoxo do Especial

Há uma ironia em como o aumento do consumo do café especial pode estar diluindo sua autenticidade. É como se, na tentativa de torná-lo acessível e democrático, o especial estivesse se tornando ordinário, perdendo aquela fagulha que o fez se destacar inicialmente.

Não é uma condenação. É um lembrete. Talvez, de vez em quando, valha a pena voltar ao básico: tomar um cafezinho na padaria do bairro, perguntar ao seu Antônio se ele já provou o novo lote, e lembrar que, no fim das contas, café especial deve ser mais do que um rótulo. Deve ser uma escolha consciente, que respeita cada etapa do processo.

A gente tem que cuidar pra que o especial, no fim, não vire só mais um.