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Café: Símbolo de União e Segregação Social

Exploramos como o café reflete e influencia divisões sociais.

TA
Tomás Andrade
Ensaísta e crítico cultural··3 min

Acordei com o barulho do bonde em Santa Teresa. Café na cafeteira italiana, porque hoje eu queria algo rápido. E fico pensando: o café que a gente toma diz muito sobre nós mesmos. Talvez até mais do que gostaríamos de admitir.

O café, esse líquido escuro e potente, já foi moeda de troca, símbolo de estadia. Nos grandes salões do século XIX, era bebido em porcelanas finas, enquanto lá fora, os trabalhadores colhiam sob o sol. Tempos mudaram, mas certas coisas não tanto assim.

O Café Como Símbolo de Status

Andando pelo centro do Rio, é fácil ver o contraste. De um lado, o café do Seu Antônio na esquina, servido em copo de vidro, adoçado na medida. Barato, acolhedor, sem firulas. Do outro, cafeterias especiais com seus métodos elaborados, nomes em inglês e preços que espantam. É que o café se tornou também um símbolo de classe. Um sinal distintivo entre aqueles que entendem a arte dos baristas e os outros que, dizem, se contentam com grãos queimados.

A elitização do café especial ameaça distanciar cada vez mais o consumidor comum. O que deveria ser uma porta para experiências sensoriais únicas vira, nas palavras de alguns, um clube exclusivo. Mas por que o café precisa ser isso? Não deveria ser, antes, um ponto de encontro?

A Segregação Cultural por Trás da Xícara

O café também carrega a ironia de unir e separar. Une quando compartilhamos uma mesa, quando a conversa é longa e a a bebida esquenta as mãos. Mas segrega quando se transforma em ritual inacessível. Não é à toa que muitos sentem um certo desconforto em cafeterias especiais. Parece que estamos sempre sendo avaliados — se não pelo que pedimos, pelo quanto pagamos.

O problema não está no café em si, mas em como escolhemos torná-lo uma ferramenta de distinção. Ouvi uma vez de um barista em Curitiba que o café é como jazz: fácil de amar, complicado de entender completamente. E se a gente resolvesse simplificar? Se tentássemos beber o café sem o peso dos julgamentos, sem a necessidade de provar algo a alguém?

Talvez esse seja o pontapé inicial para uma conversa mais ampla sobre como deixamos o café falar mais do que deveria. Como deixamos que ele conte uma história que nem sempre é nossa. Talvez seja hora de resgatar o café de padaria, o café simples, que não é menos especial por ser comum.

E você, qual café vai escolher amanhã?