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Cafeterias: Um Refúgio da Pressa Moderna

Como as cafeterias desafiam o ritmo acelerado da vida moderna e a cultura do 'para levar'.

TA
Tomás Andrade
Ensaísta e crítico cultural··3 min

A esquina da Rua São Clemente com a Voluntários da Pátria, em Botafogo, no Rio, abriga uma pequena cafeteria que tem mais a ver com um oásis do que com um ponto comercial. Lembro de uma tarde em que, entre um gole e outro de um espresso bem tirado, presenciei a conversa animada entre dois amigos. Uma cena comum, não fosse o contexto ao redor: pessoas apressadas, celulares na mão, rostos focados na tela. Uma cidade que não para.

Mas por que, em tempos de velocidade e consumo rápido, as cafeterias ainda resistem como espaço para a pausa? Talvez porque o café não seja só uma bebida; é um convite à desaceleração. Nesse lugar, o tempo parece desacelerar, como se dissesse: sente-se, respire, converse. Um antídoto contra a urgência que parece invadir nossos bolsos junto com o telefone.

Acontece que as cafeterias, em sua essência, oferecem algo que o 'para levar' não pode dar: a experiência de estar. Não é só sobre o sabor, mas sobre o momento compartilhado na mesa, na troca de olhares, na conversa que se desenrola sem pressa. Talvez seja por isso que o café instantâneo, cuja popularidade desafia a lógica do tempo investido e do sabor genuíno, não consegue ocupar esse espaço afetivo. Como a Helena já mostrou em seu artigo, essas casas de café são também espaços culturais, pequenas trincheiras de resistência contra a efemeridade do consumo moderno.

A cultura do café 'para levar' nos faz perder mais do que tempo — nos priva da experiência. O barista de Curitiba, que sempre comparou o preparo de um bom café com uma sessão de jazz improvisada, sabia disso. Ele entendia que cada xícara ali servida era única, irrepetível, como uma música tocada ao vivo. E isso, por si só, é uma forma de resistência.

Naquela tarde em Botafogo, observei um detalhe curioso. As pessoas que optavam por sentar pareciam mergulhadas em livros, em papéis, em conversas. Não estavam alheias ao mundo, mas profundamente conectadas ao que realmente importava naquele instante. Um contraste com o movimento apressado lá fora.

Aí, vem a pergunta: será que o café instantâneo, que ainda resiste nas prateleiras, mesmo com tantas críticas, pode oferecer isso? Duvido. É que o ritual do café nos convida a uma experiência que vai além do 'pegar e sair'. É sobre o encontro, a troca de ideias, o tempo de qualidade com você mesmo ou com outro. Algo que a pressa do 'para levar' jamais replicará.

Talvez por isso eu continue voltando àquela cafeteria. Não só pelo café, mas pelo que ele representa. Uma pausa. Uma resistência silenciosa.

E você, já fez sua pausa hoje?