O Café como Âncora em Tempos de Tela
Reflexão sobre como o ritual do café pode contrabalançar as distrações digitais.
O barulho do bonde na esquina, os carros passando, e aqui estou eu, sentado em frente à janela com a vista para a Guanabara. A xícara de café na mão, o único ritual que sobreviveu à enxurrada de notificações e distrações digitais. Tempos modernos, dizem. Mas o que de moderno tem nesse caos que nos afasta da simplicidade de um momento com aroma e temperatura exata?
A âncora na rotina
Preparar um café não é apenas sobre a alquimia da bebida. É sobre parar, nem que seja por poucos minutos, para um momento que é só nosso. Lembro do barista em Curitiba que falava de café como quem fala de jazz. Era uma sinfonia particular que ele compunha a cada extração. E isso me fez pensar: quantos de nós ainda ouvimos o som do café sendo coado sem a interrupção de uma tela piscando?
A tecnologia nos oferece a promessa de eficiência, mas nos rouba a pausa. O café, por outro lado, nos convida a desacelerar. E não precisa ser o V60 meticulosamente preparado. Às vezes, o cafezinho do Seu Antônio na padaria da esquina serve bem a esse propósito. Um momento em que se troca um dedinho de prosa enquanto a vida continua lá fora, ininterrupta.
O ritual que se perde
O ritual do café, como muitos outros, está ameaçado de extinção. Não porque faltem amantes da bebida, mas porque falta atenção plena. A cada manhã, nos equilibramos entre a necessidade de um momento de paz e a urgência de responder a um e-mail que poderia esperar. E aí, cai a pergunta: como preservamos esse ritual em meio à avalanche digital?
Talvez a resposta esteja no próprio ato de fazer café. A mecânica simples de medir o pó, aquecer a água, esperar a mágica acontecer. É um ato quase subversivo, o de escolher o tempo do café em vez do tempo do relógio. E enquanto muitos falam de produtividade, eu prefiro pensar na pausa. Na pausa que o café nos oferece sem cobrar nada além de nossa atenção por alguns minutos.
Reflexão ou distração?
Mas será que é sempre assim? Ou já nos rendemos, ao menos em parte, à pressa do mundo virtual? Não tenho certeza, confesso. E talvez seja essa a beleza da coisa toda: o não saber se somos mais digitais ou analógicos, se preferimos a tela ou o cheiro do café coado. No fim, o saldo fica em aberto, como a última gota de café que escorre pelo filtro.
O café nos lembra de um tempo em que a simplicidade era norma, não exceção. E ainda que o mundo gire cada vez mais rápido, esse pequeno ritual nos oferece uma âncora. Ou pelo menos um bote salva-vidas.
Aí fica a questão: quantos de nós ainda estamos dispostos a ancorar neste porto seguro?