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A Influência das Variedades de Café no Terroir e Sabor

Explorando como diferentes variedades de café afetam o terroir e o sabor.

AP
Ana Pereira
Agrônoma e cafeicultora··3 min

A escolha da variedade de café é uma decisão que começa na lavoura, mas reverbera até a xícara. Quem já andou por uma plantação de café no Sul de Minas sabe que há mais do que solo e altitude no jogo. A genética de um grão, como Catuaí ou Geisha, influencia como o terroir se expressa, e em última instância, o sabor que se sente.

Variedade e Potencial de Sabor

Imagine um produtor em Carmo de Minas que decide apostar no Bourbon. O que ele espera? Uma doçura natural, acidez equilibrada, talvez um toque de frutas vermelhas. Isso não é sorte. É genética. Cada variedade traz consigo um potencial sensorial que o terroir vai amplificar ou diluir. O Bourbon, por exemplo, é conhecido por se adaptar bem a altitudes elevadas, trazendo nuances que aplainam a complexidade de acidez com doçura.

Mas se essa mesma variedade for plantada no Cerrado Mineiro, o resultado muda. Ali, o solo mais argiloso e menos fértil impacta a absorção de nutrientes, influenciando o crescimento do grão e, por consequência, o potencial de sabor. Se não houver um manejo adequado no terreiro, como secagem a 11% de umidade ou fermentação controlada, todo esse potencial corre o risco de se perder.

O Papel da Genética no Terroir

Um fato que poucos reconhecem é o impacto da variedade na forma como o grão interage com o microclima. Tomemos o Catuaí, por exemplo. Ele é uma escolha comum nas lavouras do Brasil devido à sua resistência e rendimento. No entanto, seu sucesso depende de como a planta se relaciona com as condições locais de umidade e temperatura. Variedades como o Geisha, que se destacam em regiões de alta altitude na América Central, costumam ter notas florais e cítricas por conta dessa interação com o terroir específico.

Como já discuti em outro artigo sobre fermentação controlada, o manejo pós-colheita é essencial para não comprometer essas características genéticas. A cereja madura que chega ao terreiro tem um potencial que precisa ser preservado.

Diferença Entre Bem-feito e Mal-feito

Então, o que separa um café de 86 pontos de um de 82, quando ambos provêm da mesma variedade? A resposta, frequentemente, está na atenção aos detalhes. Um Bourbon pode expressar sua doçura característica se a fermentação for bem controlada, evitando a atividade excessiva de água que prejudicaria a qualidade do grão.

É comum ver um Catuaí que, se colhido antes da maturação completa ou mal processado, resulta em uma bebida sem vida, ácida demais ou com defeitos sensoriais. A variedade pode ter o potencial, mas é o manejo que desenha o resultado.

Essa compreensão leva o consumidor a uma nova perspectiva: o café na xícara não é apenas resultado do terroir ou da variedade isoladamente, mas de como esses elementos dialogam no processo.

Ao escolher um café, pensar na variedade é apenas o começo. A história do grão vai além da genética, passa pelo solo, pelo clima e, mais importante, pelo cuidado que recebeu desde a colheita até a secagem. Com isso em mente, cada gole se torna não apenas um prazer sensorial, mas um reconhecimento do trabalho envolvido.